quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Cultivar





Eu não estava bem. Era como seu eu fosse um velho ímpio nos seus 80 anos que apenas aceita e espera o tempo passar. Os dias eram todos iguais e tão tediosamente chatos que eu tinha sono de ter que viver mais um dia. A mesmice me tornou descrente. Era uma inércia que me adoecia por parecer me deixar sem sentidos: não via mais nada, não mais observava, não ouvia, não sentia gosto, cheiro, nada era belo, nada era feio, nada era isso e nem aquilo. Essa neutralidade e ausência tornavam minha realidade tão insossa que até minha imaginação enfraquecia e carecia de criatividade. Construiu-se uma espécie de bloqueio mental que me impedia de absorver qualquer tipo de informação e que refletia inclusive nos meus trabalhos artísticos. Não conseguia mais criar, analisar, ouvir, me ouvir, concentrar, me inspirar. Eu não tinha mais nenhum foco na vida e logo, não tinha mais nenhum foco na minha arte. Mas essa indolência adquiriu uma dimensão tão gigantesca que ou eu tomava uma atitude ou entrava em estado de decomposição. Eu optei pelo primeiro. Busquei assumir que eu estava com um problema e ao identifica-lo, passei a pensar sobre ele. Este simples fato já me ajudou consideravelmente. Pode parecer fácil, mas despertar a sensibilidade e consciência dessas minhas questões foi resultado de um processo longo e trabalhoso.
Devido a fatores externos, passei a ler textos, ver peças e filmes (vou citá-los pois foram eles que realmente me ajudaram: obras do Bergman, Clarice, Fellini, Wong Kar Wai, Tarkovski, irmãos Coen, Nelson, David Lynch, Charlie Kauffman, Ozu, Rommer, e entre muitos outros...) que são considerados obras de arte por tratarem magistralmente de questões universais do ser humano. São assuntos relevantes e essenciais retratados de forma tão inteligente e tocante que me transportaram para a própria realidade da obra. Passei a ter os mesmos questionamentos sobre a minha vida, sobre o mundo, sobre as relações, e senti que minha mente abriu mil novas portas para possibilidades e idéias. Me senti ignorante por perceber o quanto eu não sei, mas ao mesmo tempo me senti culto. Não no sentido de ser um sábio de grandes obras, mas no sentido de poder absorver delas essas questões humanas e de me deixar ser transformado por isso.
Como não podia ser diferente, meus trabalhos artísticos também mudaram. A arte me fez enxergar a minha arte e passei a ter um objetivo nela: tentar trazer esse senso crítico às pessoas para que se possa desenvolver a consciência cultural e consequentemente as faça crescer individual e coletivamente. É claro que não é um trabalho simples, mas cultivar a arte exige muita persistência e vontade tanto do artista quanto do espectador.
Não quero parecer pretensioso e nem impositivo ao achar que arte é a solução para todo o mundo, mas também não acho que se condicionar a ver apenas "Cinemark" e "Rede Globo" seja a solução para alguma coisa. Podemos nos influenciar por essas coisas também, mas que saibamos a diferença entre diversão e arte, para que não desvalorizemos a arte de fato e para que não nos tornemos pessoas burras.
Então, meus dias passaram a ser diferentes. Mais interessantes, mais ensolarados ou mais nublados, com reflexões e com utopias. Não me senti mais velho. E não digo velho no sentido de ter rugas, mas no sentido de não estar mais alienado. Ser velho é estar nesse estado anestésico. E o que a arte faz é justamente eternizar a juventude que nos desperta. É ela que faz a diferença para não acabarmos como a Elis disse hoje pra mim: "... ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais!".



quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Marina



A saudade é como um vento que passa e não vemos...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Eros e Thanatos


Eu vou falar de amor.
No início achei que ia ser meio piegas, mas logo mudei de idéia.
Eu escrevi isso há um tempinho... e não que eu concorde com tudo (e isso nem importa), mas achei interessante eu ter pensado nisso um dia.
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"Eu não estou com ninguém no momento, eu estou sozinho mesmo. Na verdade eu sou sozinho e não por escolha, mas porque eu acho que todo ser humano está destinado a ser solitário. Nós apenas nos enganamos ao estar com uma pessoa e acreditar naquilo, quando na verdade essa mentira só nos leva a um fim mais trágico.
O que mais tem me irritado é que ultimamente eu tenho ouvido muito as pessoas falarem a frase: "EU TE AMO", que pra mim é a maior das merdas e a maior das mentiras. O amor não existe mais. Vomitam essa palavra pra dizer qualquer outra coisa, mas não a utilizam no seu sentido genuíno. Amor de verdade é quando você perde completamente o controle de si e se doa inteiramente para o outro por mais fatal que isso possa ser. Você é o outro e não existe distância. Ou você tem o outro ou é insuportável de respirar. Ou você tem o outro ou você morre. Amor é sobrevivência. Ele te transporta para um estado de urgência onde não existe mais medo. Você é capaz de pular de um precipício. Amor é suicídio.
Mas ninguém mais sente isso. Eu não sinto. Eu apenas desejo sentir isso, porque eu não tenho coragem de pular de um precipício. Eu não tenho coragem pra nada. Eu não amo nada. Eu não amo ninguém. Não amo nem a mim mesmo porque eu não me mataria por me amar. E eu não mereceria uma morte tão feliz, afinal eu sou apenas mais um desses adolescentes iludidos de hoje que não sabe amar. Que conhece qualquer um na balada e já diz que ama. Conhece há algum tempinho e já casa, já decide morar junto e aceita isso como amor. Acredita nesse conto de fadas, mas que na verdade não passa de uma simples comodidade. Isso não é amor, isso é fácil. Tão fácil e tão comum. Tão comum que as pessoas já se acostumaram a viver nessa dormência amorosa por continuarem com a crença nessa fantasia barata e nisso que consideram ser o mundo perfeito. Perfeição não existe. Ou melhor, existe sim: para aqueles que são livres! Livres para amar, livres para morrer de amor. Libertos do tempo, libertos do destino, libertos de qualquer condição do ser humano.
Mas o que adianta eu escrever tudo isso? Ninguém mais entende. Nada mais faz sentido. Todos acham radical porque ninguém enxerga que todos nós somos vítimas dessa banalização toda. Carregamos esse fardo e o passamos para as próximas gerações que já nascem assim, vazias. Todos viraram bichos. Mas chegamos a um ponto em que não há mais volta. O amor se extinguiu. Estamos condenados. Então aprendamos a viver e a morrer sozinhos."


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Um blog?


Não sei bem porque resolvi fazer um blog.

Pode ser que me deixe mais ocioso porque será um motivo a mais para eu ficar preso na frente de um computador, enquanto eu poderia estar fazendo outras coisas muito mais ricas e prazerosas como ler um livro ou comer pistache. Mas essa prisão me instiga. Ela tem uma força mágica, meio hipnótica. Meio maléfica também. Eu estranhamente gosto disso.
Mas pode ser que me seja igualmente útil porque vai me obrigar a tirar mais fotos e a escrever, que são coisas que eu adoro. Principalmente se podem ser juntadas numa idéia só. Não tenho costume de escrever e nem tenho intimidade com as palavras, mas não tenho pretensão nenhuma de virar escritor.
Quero apenas escrever aqui.
Expressar qualquer coisa, vomitar qualquer merda. Será balsâmico.
Mas acho engraçado eu resolver escrever aqui, na internet. Na maior rede de comunicação do planeta. Se eu realmente quisesse fazer algo pra eu poder refletir e me sentir melhor, eu simplesmente pegava um caderno, um lápis, uma prit, colava uma foto e comentava embaixo.
Só ali.
Pra mim.
Sem temer e dever a ninguém.
Afinal a única pessoa pra quem aquilo iria importar seria justamente pra mim mesmo.
Pronto, bastaria.
Mentira, não me basta. Não me contento com esse individualismo anônimo. Preciso que isso seja público, que todos possam acessar. Quero me expor pra que todos me vejam e saibam quem eu sou. Quero popularidade. Quero que meu blog seja o melhor e mais lido de todos. Quero que leiam, quero que comentem, quero que elogiem, quero que critiquem. Quero tudo e não sou nada.
Nada.
Nada vai me ajudar, nada vai me acrescentar, nada vai acontecer, nada de nada. Só vai alimentar mais o meu ego e me envenenar mais com futilidades.
Que boicote. Que bobagem. Que divertido. Que elocubração. Que perda de tempo!

Pronto, já sei. Resolvi fazer um blog pra perder mais do meu precioso tempo.
...
e eu quero isso? Não sei. É que é mais forte que eu.